Especialista em manutenção aeronáutica e criador do canal Aviões e Músicas conquistou milhões de pessoas ao transformar temas complexos da aviação em conteúdo acessível; nos últimos meses, compartilhou publicamente a luta contra uma doença rara
O Brasil se despede nesta quinta-feira (1º) de Joselito Geraldo de Sousa, conhecido como Lito Sousa, aos 59 anos. Especialista em aviação, ex-mecânico de aeronaves, empresário e criador do canal Aviões e Músicas, ele morreu após enfrentar uma doença rara e de rápida progressão, a Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). A morte foi confirmada nas redes sociais ligadas ao trabalho do influenciador e encerra uma trajetória marcada por décadas de dedicação à aviação e pela capacidade de transformar conhecimento técnico em informação compreensível para milhões de pessoas.
Antes de se tornar conhecido na internet, Lito construiu uma carreira de mais de três décadas na área de manutenção aeronáutica. Ele teve passagens por empresas como Varig e United Airlines e acumulou experiência técnica no setor antes de levar esse conhecimento para o ambiente digital. Foi a partir do projeto Aviões e Músicas, criado ainda nos anos 2000, que passou a explicar o funcionamento das aeronaves, procedimentos de segurança, curiosidades e acidentes aéreos para um público que muitas vezes não tinha qualquer familiaridade com os termos da aviação.
A maneira direta e didática de falar sobre assuntos técnicos fez com que Lito ultrapassasse o público especializado. Seu conteúdo alcançou milhões de seguidores e também se tornou especialmente conhecido entre pessoas que tinham medo de voar. Ao comentar acidentes e explicar o que acontece dentro de uma aeronave em diferentes situações, ele procurava substituir o imaginário e o medo por informação. Entre os temas que ajudou a popularizar estava justamente a explicação sobre turbulências e os motivos pelos quais elas, por si só, não significam que uma aeronave esteja prestes a cair.
Nos últimos meses, porém, a relação de Lito com a aviação ganhou um significado diferente. Em 2026, ele havia revelado inicialmente o diagnóstico de câncer de próstata. Durante a investigação de seu estado de saúde, surgiu um quadro neurológico que provocou perda progressiva de movimentos e outras alterações. Em agosto, ele confirmou publicamente o diagnóstico da Doença de Creutzfeldt-Jakob, uma condição neurodegenerativa rara, progressiva e sem cura conhecida.
A partir daquele momento, Lito decidiu dividir com o público não apenas informações sobre aviões, mas também uma das fases mais difíceis de sua própria vida. Em um vídeo gravado no dia em que recebeu a confirmação do diagnóstico, falou sobre a possibilidade de morrer, sobre a preocupação com a esposa, Mila Seidl, e com o filho de sete anos, e sobre a vontade de continuar lutando enquanto houvesse alguma possibilidade. A gravação, feita enquanto ele ainda preservava sua capacidade cognitiva, acabou se tornando um dos registros mais marcantes de sua despedida pública.
A família e amigos também se mobilizaram em busca de alternativas experimentais para o tratamento. Lito chegou a receber apoio público de representantes de grandes companhias aéreas brasileiras, enquanto sua equipe procurava incluí-lo em estudos internacionais. Em setembro, ele recebeu uma substância experimental, o ALN-6457, após uma autorização excepcional para acesso ao medicamento. A tentativa ocorreu durante um período em que ele permanecia sob cuidados médicos por causa da evolução da doença.
A doença avançou rapidamente. Depois de passar por internações, Lito chegou a deixar o hospital no início de setembro para continuar os cuidados em casa, onde uma estrutura de atendimento foi montada para acompanhá-lo. Mesmo diante da gravidade do quadro, sua família continuou compartilhando atualizações e buscando possibilidades de tratamento.
A despedida também alcançou a comunidade da aviação. Em agosto, antes mesmo de sua morte, o piloto e escritor Enderson Rafael chegou a escrever o nome “LITO” no céu durante um voo realizado no Texas, nos Estados Unidos, em uma homenagem ao profissional que havia dedicado grande parte da vida aos aviões. O gesto simbolizou a dimensão que sua trajetória havia alcançado entre pessoas ligadas ao setor e admiradores de seu trabalho.
Em Santa Catarina, Lito também mantinha uma ligação recente com o público por meio do HJ Conference, em Concórdia. Ele estava entre os nomes anunciados para o evento de setembro e, mesmo após o diagnóstico, havia manifestado o desejo de participar enquanto suas condições de saúde permitissem. A organização decidiu manter sua presença na programação, mas deixou de utilizar sua imagem em campanhas comerciais, afirmando que a prioridade naquele momento era respeitar sua saúde, seu espaço e sua família.
Mais do que os números alcançados nas redes sociais ou a quantidade de vídeos publicados, a trajetória de Lito Sousa ficou marcada pela aproximação entre um universo essencialmente técnico e o público comum. Ele falava de motores, manutenção, segurança, procedimentos e acidentes sem transformar o conhecimento em algo inacessível. Para muita gente, era justamente essa capacidade de explicar o que parecia complicado que fazia seus vídeos serem diferentes.
A morte de Lito encerra uma trajetória profissional construída longe dos holofotes antes de chegar à internet e que, depois, ganhou uma dimensão nacional. Nos últimos anos, ele não foi apenas um criador de conteúdo sobre aviões: tornou-se uma das principais referências brasileiras na comunicação sobre aviação para o público geral. Nas últimas semanas, ao compartilhar também sua própria luta, permitiu que milhões de pessoas acompanhassem não somente o especialista por trás das câmeras, mas o homem diante de uma situação que nenhum conhecimento técnico poderia simplesmente resolver.