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Região de Itajaí amarga prejuízos sociais, econômicos e ambientais com filas na BR-101

Região de Itajaí amarga prejuízos sociais, econômicos e ambientais com filas na BR-101

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Quarta-feira, 11 de agosto, duas horas da tarde. O tempo estava nublado em Itajaí. Nesse horário, o fluxo era intenso na BR-101 na região da cidade portuária, mas sem congestionamentos pelo menos por ali.

Na direção, um experiente caminhoneiro. Nascido em Itajaí, Janderson Maçaneiro, cresceu vendo a movimentação dos veículos de carga praticamente na porta de casa. Apaixonou-se por aquela que viria a ser a profissão até hoje. Há 19 anos, ele sustenta a família com o transporte de contêineres de um lado para o outro, entre municípios daqui e de fora do Estado.

Acompanhou ao longo do tempo as transformações da BR-101. “Quando era de pista simples estava em uma situação muito complicada. Com a duplicação a gente percebeu que já não ia conseguir absorver [o trânsito] mesmo naquela época”, lembra Maçaneiro. As obras para duplicar o trecho norte foram concluídas no início de 2000.

Depois de mais ou menos 40 minutos de conversa no primeiro PPD (Ponto de Parada e Descanso) de caminhoneiros, autorizado pelo governo federal às margens da BR-101 em Itajaí, hora de seguir viagem. Da cabine do caminhão, uma visão privilegiada da rodovia. Nem foi preciso percorrer uma longa distância para o caminhoneiro chamar a atenção.

“Três da tarde, não é horário de pico, olha só, a lentidão, o outro lado também está lento”, disse ao dirigir pelo sentido Norte enquanto nos aproximávamos do entroncamento com a BR-470. Maçaneiro fez um retorno para seguirmos em direção ao sul do estado e logo depois da ponte de Navegantes outro alerta. “Olha só a situação! Estou a 40 quilômetros por hora em uma rodovia federal. E vamos parar. Estamos parando. E é assim sempre”, concluiu o caminhoneiro quando o trânsito parou completamente por alguns minutos.

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Na maior parte do trecho entre Itajaí e Itapema a velocidade da nossa viagem a bordo do caminhão oscilou entre 70 e 90 quilômetros. “A gente está numa situação boa porque tá andando. Normalmente isso aqui tá parado”, ressaltou o caminhoneiro. No retorno para Itajaí, no local onde encontramos o nosso anfitrião, nenhum problema de engarrafamento, somente movimento intenso em um dia atípico. “O corredor logístico da nossa região é a BR-101 e ela tá intrafegável”, desabafa Maçaneiro.

No PPD Itajaí também conversamos com o Fabiano Dias, presidente da AGTC (Associação Grupo Tribo do Contêiner). A entidade representa 65 caminhoneiros da região, a maioria autônomos dependentes da fluidez da rodovia para ter produtividade e rendimento financeiro. De acordo com a associação, o pior dia na BR-101 é na sexta-feira. É quando o ritmo logístico fica mais comprometido. “Você leva de uma, duas até três horas para percorrer 16 quilômetros”, avalia Dias.

O GT BR-101 do Futuro, coordenado pela Fiesc, contratou um especialista em HCM (Highway Capacity Manual), uma das ferramentas mais modernas da engenharia de tráfego, para medir a capacidade do sistema viário da BR-101. Pela metodologia científica é possível determinar o nível de comprometimento dos serviços de uma rodovia. A classificação vai de “A” – melhor – até “F” – último e pior nível. Em alguns dias e horários, o trecho entre Penha e Itapema, está classificado em F, e foi constatado períodos em que a velocidade não passa de 10 km/h.

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Prejuízos da lentidão

Sem precisar de papel e caneta, nem calculadora, Maçaneiro fez um cálculo rápido de como a lentidão aumenta o consumo de combustível. “Um caminhão engatado em uma carreta com 32 toneladas faz 2,4 quilômetros por litro. Em um congestionamento é um litro para cada 600 metros percorridos. Olha o prejuízo diretamente ali no tanque”, ressalta o caminhoneiro. Em Santa Catarina, o preço médio do litro do óleo diesel, nesta última semana, é de R$ 4,69.

A BR-101 parada ou lenta traz outra perda para o bolso de quem sobrevive da logística portuária. Quando ocorre um atraso na retirada de um contêiner do porto, significa que o caminhoneiro deu um “no-show”. O termo em inglês significa o não comparecimento e na prática funciona como uma taxa pelo não cumprimento do compromisso. O preço do “no-show” simples, só pelo não comparecimento, varia entre R$ 280 a R$ 380.

Caso o cliente precise prolongar o período de estocagem ou fazer um reagendamento, o valor aumenta e varia de um porto para outro. “Pode chegar até 2 mil e tantos reais dependendo da mercadoria, do tempo, da condição, e vai tirar do pouco lucro que a gente”, finaliza Maçaneiro. Nessa conta ainda tem os desgastes físico e psicológico impossíveis de serem calculados. No fim, a sociedade inteira paga pelo prejuízo, porque toda a cadeia da economia trava junto com os engarrafamentos.

Crescimento constante

No primeiro semestre deste ano, o Porto de Navegantes cresceu 42,1% em relação ao mesmo período de 2020. Em seis meses passaram pela estrutura portuária 660.099 contêineres. O terminal privado responde por 9,2% do total de movimentação via portos em todo o Brasil. Sem ferrovia na região, a operação logística de entrada e saída dos contêineres para os exportadores e importadores é feita pelo modal rodoviário.

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Em média, 2.500 caminhões por dia participam dessa logística. “Os nossos transportadores tem janelas em que eles podem programar para retirar ou para trazer essas cargas. Se existe um problema na rodovia e essa rodovia é interrompida por qualquer motivo existe um desbalanceamento desse nosso planejamento”, comenta Osmari de Castilho Ribas, diretor superintendente da Portonave.

A atual situação da BR-101 provoca um efeito dominó com aumento de custos e impactos diretos na competitividade do negócio. Se o cenário permanecer o mesmo, existe o risco de reduzir a velocidade de crescimento e consequentemente das oportunidades geradas pelo porto.

“Nós temos aqui um potencial para crescer, temos uma movimentação que está fluindo muito bem. Quando se fala de porto nós olhamos sempre a longo prazo, esperamos ter esse crescimento, certamente teremos investimentos para nos adequar, mas não podemos estar limitados pelos acessos principalmente o acesso rodoviário e o acesso aquaviário”, salienta Castilho.

O crescimento também é exponencial no Porto de Itajaí. De 2016 para 2020 houve um salto de 177,9% na movimentação de contêineres. Existe um projeto de ampliação da área portuária de 180 mil para 380 mil m2 gerando, consequentemente, um aumento na demanda por infraestrutura no entorno do porto e da própria cidade. Atualmente, uma média de 1.500 caminhões entram e saem todos os dias do terminal e se deslocam pela BR-101.

De acordo com a superintendência do Porto de Itajaí, um engarrafamento na rodovia atrapalha toda a operação portuária baseada no agendamento de chegada dos caminhões. Isso gera muitas vezes filas, acúmulo de caminhões, e em determinados momentos poucos caminhões.

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“O porto nada mais é do que um elo de ligação do modal marítimo com o terrestre. Não adianta investirmos milhões para receber cada vez navios maiores se a parte terrestre não está sendo executada a contento porque vai haver um desequilíbrio”, comenta Fábio da Veiga, superintendente do Porto de Itajaí.

Propostas de soluções

Há sete anos, o Grupo BR-101 do Futuro trabalha no monitoramento dos principais gargalos da BR-101 e na elaboração de propostas para garantir a segurança e a eficiência do principal eixo logístico do estado. Uma série de sugestões para resolver os problemas da rodovia na região de Itajaí foi entregue ao Grupo Paritário de Trabalho da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), responsável pelo acompanhamento da 101 catarinense. As propostas foram elaboradas por especialistas da Fiesc, engenheiros contratados pela federação e com a participação da Arteris Litoral Sul concessionária do trecho norte da rodovia.

O conjunto de medidas incorpora obras estruturais nos pontos mais críticos e que precisam de intervenções urgentes para minimizar o risco de um colapso na rodovia. Algumas começaram a sair do papel como o trevo no KM 108, em Penha, e a ponte de transposição sentido norte no Canal Itajaí Mirim, mas os trabalhos precisam ser concluídos. A proposta inclui melhorias como a construção de marginais contínuas, readequação do entroncamento da 101 com a 470, implantação de novos viadutos e pontes de transposição.

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A Fiesc calcula que para executar o conjunto de obras sugeridas à ANTT são necessários investimentos de aproximadamente R$ 430 milhões. Contudo, o retorno seria três vezes maior quando considerados aspectos sociais, ambientais e econômicos.

O estudo da Fiesc destaca entre como benefícios dessas intervenções estruturais o aumento da velocidade média na região de 54 para 63 km/h, redução do tempo de deslocamento e dos gastos nas viagens com economia operacional prevista em R$ 674 milhões, diminuição do custo na geração de gases poluentes e dos acidentes estimada em R$ 690 milhões, entre outros.

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Egídio Antonio Martorano, gerente de logística e sustentabilidade da Fiesc, acredita que um caminho possível para tirar as obras do papel está na revisão quinquenal do contrato de concessão da rodovia, prevista para o ano que vem. “Nós temos que aproveitar a concessionária que tem a vontade de fazer os investimentos, tem os projetos avaliados pelo grupo técnico, pela Fiesc, e dar celeridade na implantação, porque nós não podemos parar e realmente Santa Catarina pode parar”, alerta Martorano.

As melhorias precisam ser autorizadas pela ANTT porque impactam no reequilíbrio financeiro do contrato de concessão com reajuste da tarifa de pedágio. O presidente da Fiesc, Mario Cezar de Aguiar, não tem dúvidas da necessidade urgente das intervenções. “A não execução dessas obras que foram apontadas em cima dos gargalos aí identificados vai impactar na economia catarinense fortemente não só para a indústria, mas também para o setor de turismo, enfim, para a toda sociedade catarinense”, esclarece Aguiar.

Em nota, a Arteris Litoral Sul informou que as obras citadas na reportagem dependem da análise de viabilidade e do reequilíbrio do contrato de concessão. Isso é feito pela ANTT.

Até o fechamento desta reportagem a ANTT não havia respondido aos questionamentos do ND sobre o trecho da BR-101 em Itajaí.

Propostas de melhorias BR-101

Trecho Penha – Itajaí

Penha

Trevo no KM 108

Marginais contínuas

Navegantes

Readequação do entroncamento das BRs 101/470

Demolição da pista norte no Rio Itajaí Açu e a construção de nova pista com 3 faixas, acostamento e marginal de 2 faixas

Implantação de marginal também com duas faixas na pista sul

Itajaí

Marginais contínuas

Construção de viadutos

Ponte de transposição no Canal Itajaí Mirim na marginal sul e término da estrutura no sentido norte

Readequação das alças no KM 120

Ponte de transposição na marginal sul no Rio Itajaí Mirim

Viaduto no acesso a Rodovia Antônio Heilk

Ponte de transposição na marginal sul do Rio Canhanduba

Investimento: R$ 430 milhões

Retorno: R$ 1,5 bilhão

Fonte: GT BR 101 do Futuro/Fiesc

Consumo de combustível*

Caminhão com 32 toneladas

Sem congestionamento – 2.4 KM/L

Com congestionamento – Rendimento 3 x menor – 600 M/L

*Baseado no relato do caminhoneiro Janderson Maçaneiro

Movimentação de Contêineres (TEUs)

Porto de Itajaí

2016: 196.226

2020: 545.338

+ 177,9% (2016/2017)

Fonte: Superintendência do Porto de Itajaí

Porto de Navegantes

2021*: 660.099

+ 42,1% (2020/2021)

9,2% participação nacional

*1º Semestre

Com informações do site ND Mais