Principal SAÚDE Qilombolas da Ilhotinha recebem vacina contra a Covid
Qilombolas da Ilhotinha recebem vacina contra a Covid

Qilombolas da Ilhotinha recebem vacina contra a Covid

0
0

Nesta terça-feira, (23), a comunidade Quilombola do bairro Ilhotinha, em Capivari de Baixo, receberá a primeira dose de vacinação contra a Covid-19, em mais uma etapa de imunização da pandemia no município, que já está com 1.677 capivarienses protegidos após as campanhas voltadas aos profissionais de saúde, pessoas com deficiência e idosos.

Para explicar sobre este lote especial e sanar todas as dúvidas do grande público, os quilombolas são moradores de comunidades tradicionais, certificadas pelo antigo Ministério da Cultura (MinC) – hoje Secretaria Especial da Cultura -, como ocorre com a de Capivari, reconhecida desde 2014, após um estudo aprofundado do então procurador da República em Tubarão à época, Celso Três, e do Departamento de Comunidades Tradicionais, que hoje funciona no Ministério Público Federal de Criciúma. Feito o levantamento inicial, técnicos do extinto MinC vieram da capital do país à cidade termelétrica para conferir e realizar um laudo, voltaram a Brasília e concluíram a certificação.

Essas doses foram distribuídas somente nesta segunda-feira aos municípios. Somente em Santa Catarina são 15 cidades com comunidades quilombolas reconhecidas, no Sul do Estado são quatro: Garopaba, Capivari de Baixo, Praia Grande e Araranguá. São 4.850 doses voltadas a este público-alvo.

A referência atual da população quilombola no Estado barriga-verde foi obtida por meio de um levantamento realizado pela Gerência de Políticas para Igualdade Racial e Imigrantes, da Diretoria de Direitos Humanos da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Social, em janeiro deste ano.

O lote de 505 doses voltado aos quilombolas em Capivari foi destinado conforme a Nota Técnica 007, da Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Dive), da Superintendência de Vigilância em Saúde (SUV) e Secretaria de Estado da Saúde.

José Carlos Mendes, o Tinho, coordenador da comunidade Quilombola de Ilhotinha e presidente da Associação Palmares de Ilhotinha, informa que há muitas comunidades tradicionais no Estado. “Além dos quilombolas aqui há, na Amurel, os indígenas em Imaruí, por exemplo, assim como o povo cigano, que também ter certificação nacional”, detalha. Tinho também é gestor de Cultura da prefeitura de Capivari de Baixo e professor de Filosofia e uma das principais lideranças do Sul de Santa Catarina na luta por direitos da população afrodescendente.

“Nosso elemento cultural é o imaterial. Leva-se em conta o trabalho da comunidade, ou seja sua produção, religiosidade, costumes, culinária e hábitos alimentares”, sublinha Tinho, sobre os moradores quilombolas da Ilhotinha.

Logística de vacinação

Conforme logística pré-estabelecida pela Vigilância Epidemiológica de Capivari de Baixo, a vacinação deste grupo deverá ocorrer também nesta quarta-feira (24), no ESF da Ilhotinha, provavelmente no mesmo horário (16 às 19h). A expectativa é que 300 pessoas sejam imunizadas hoje e perto de 200 amanhã, protegendo, assim, boa parte dos adultos quilombolas do bairro.

Curiosidade

Havia, na Ilhotinha, duas famílias de descendentes de italianos, a Marcon e a Garbelotto, que detinham as posses das terras do bairro. Muitos afrodescendentes se concentraram nesta região para trabalho e, antigamente, atuavam inclusive como escravos. Hoje, esta é a única localidade rural da cidade e predominante negra. “Com a certificação de quilombolas, já recebemos uma série de políticas públicas voltadas a esta comunidade tradicional. São 120 famílias, por exemplo, assistidas com cestas básicas”, destaca Tinho.

“A Associação Palmares de Ilhotinha, que existe desde 2003, ainda não tem uma sede, mas sempre conseguimos nos reunir na Escola Vitório Marcon para debater políticas públicas ao nosso povo” agrega o dirigente cultural. Ele complementa: “O nosso papel é evidenciar a cultura negra e o combate ao racismo. Existe uma resistência por parte de algumas pessoas da própria comunidade de aceitar, mas é por falta de conhecimento”, emenda José Carlos.

Ele ainda realça afirmando que há uma série de parceiros no Estado e no país, como o Criar Brasil, que recebe jovens do Rio de Janeiro para treinamentos de comunicação, rádio e políticas de prevenção, além de muitas parcerias já firmadas com a Fundação Catarinense de Cultura. Na Alesc, por exemplo, a Associação já recebeu a medalha do Mérito Cruz e Souza pela série de ações construídas e executadas na comunidade e o trabalho em favor da diversidade racial e multicultural. “Não lutamos somente por nossa emancipação, mas pela igualdade e por nossa imposição comunitária. Batalhamos pelas pessoas que estão à margem do processo social”, conclui.

Quem são os quilombolas?

São os descendentes e remanescentes de comunidades formadas por escravizados fugitivos (os quilombos), entre o século XVI e o ano de 1888 (quando houve a abolição da escravatura), no Brasil.

O que é ser quilombola hoje?

As palavras “quilombo” e “quilombola” hoje estão associadas a um povo que teria desaparecido com o fim da escravidão. O que hoje se chama de “comunidade remanescente de quilombo” são agrupamentos que herdaram as principais características desses espaços, formados por netos e bisnetos de escravos.