Principal Últimas Em Destaque Especial Noticom: a realidade a frente e atrás das grades
Especial Noticom: a realidade a frente e atrás das grades

Especial Noticom: a realidade a frente e atrás das grades

0
0

Finas camadas de espuma resguardam as cabeças que pairam leves ou pesadas sobre os travesseiros. Os blocos de cimento manchados formam uma estrutura cubicular que, friamente, calam vozes que ressoam entre as paredes geladas e barras de ferro. Vozes abafadas pelo anseio de dezenas de outras lamúrias, vindas do mesmo pequeno e apertado “cômodo”. De repente, um estrondo metálico quebra o pouco silêncio que havia. Após o primeiro barulho, o ruído metálico segue uma sequência rápida, sinalizando que começou o dia. Mais um dia no sistema carcerário feminino brasileiro. Mulheres. Enclausuradas. Abandonadas.

Ao colocar as mãos para trás, presas em algemas, a dignidade fica obscurecida no estereótipo que simboliza exclusão e perigo. Diante da perversidade, a população menospreza a realidade carcerária, onde 42 mil mulheres vivem atrás das grades em todo o Brasil. O dado é do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), realizado em 2018. A punição prevista em lei é intensificada pela invisibilidade e pelo preconceito que as detentas sofrem. Um retrato que diverge, em muitos fatores, do quadro masculino penitenciário, não só na higiene diária, mas, principalmente, pelas causas do aprisionamento. 

Quando conheceu o ex-marido Joel Machado, Michele de Bona sabia do envolvimento dele com o tráfico de drogas e, por isso, procurou ajudá-lo a encontrar outros caminhos. “Consegui manter ele afastado da maconha por sete anos”, relata a paisagista, que era dona de uma floricultura junto com o companheiro. No entanto, ele voltou a manusear entorpecentes, por fins medicinais. É o que afirmava para a esposa. Diante da escolha, Michele pediu separação e o relacionamento se transformou em união estável, já que Joel alugou uma casa ao lado para ficar. Embora não dividissem mais o mesmo teto, o ex-esposo sempre esteve próximo dela. Mal sabia ela que, ao ficar longe do lar, o vizinho praticava o comércio ilícito. “Saia cedo, sete horas da manhã, chegava à noite, então, não via o que estava acontecendo”, relembra. 

Michele de Bona é um nome fictício. A detenta não quis revelar sua identidade.

Cinco meses depois, o resultado do contrabando: encarceramento. Mesmo sem relação direta no crime, Michele foi presa por suspeita de envolvimento com o tráfico de drogas, posse de armas e fraude processual . Desde então, há um ano e oito meses, o Presídio Feminino de Tubarão tornou-se sua morada. O início foi de revolta. Michele sabia que poderia ter evitado tudo isso e lamenta somente o coração empático que teve com o ex-marido. “Me arrependo apenas de ter sido boa com ele”, revela, entre suspiros. Com o cabelo comprido amarrado com um simples cordão elástico, Kálita Abatti também está presa na mesma cadeia. Mas sua mente é livre. Seus pensamentos estão lá fora, sente falta dos mínimos detalhes. “De poder andar de pé descalço na areia, de poder sentar-se no balanço, de poder pegar o vento na cara, da comida da minha mãe. Não que a comida do presídio seja ruim”, relata emocionada.

O chinelo de dedo de cor branca já amarelado pela sujeira, o uniforme chamativo de cor laranja tão comum por ali. Logo ela que adorava fazer roupas para suas bonecas quando pequena, havia de se contentar com a moda que lhe impuseram. Mas o detalhe no pulso não poderia ser esquecido, uma pulseira vermelha. Não era sobre religião, era sobre beleza. Um lacre plástico de um pacote de bolacha, sorri com a própria criatividade. Ela tão jovem, 25 anos, perdeu sua liberdade pela terceira vez. A última numa investigação da Polícia Civil, sendo suspeita de envolvimento com o tráfico, associação e organização criminosa e aliciamento de menor. Ela e o marido Joelso, nome que faz questão de deixar tatuado no lado direito do pescoço.

Os dois apaixonados não medem esforços para ficarem juntos. Ainda que presos fisicamente em diferentes presídios, a comunicação se dá através de cartas. “A gente conta a rotina do dia a dia, como está sendo, o que está acontecendo, o que eu faço por aqui. E fazemos planos para o futuro”, esclarece Kálita que ainda tem a compaixão do marido e de pessoas da família. Diferente da Michele que já nem quer saber do ex-marido e contrário também da dura realidade enfrentada pelas detentas que recebem uma quantidade muito menor de visitas, em comparação com a penitenciária masculina. .

Avental de respeito 

A paisagista Michele, diferente das demais, tem a oportunidade de dividir o tempo entre a cela acinzentada e a cozinha da instituição. Isso porque, no presídio feminino de Tubarão, a empresa que administra a comida faz a contratação das reclusas para a prestação de serviço. Até por uma questão de segurança que evita o entra e sai de pessoas. O salário varia de R$998,00 a R$1.000. O trabalho é regulamentado pela legislação catarinense que prevê que 25% do valor total seja revertido para o estado. Sendo uma forma de ajudar nos custos que o próprio sistema penitenciário gera ao governo. Além de ser um compromisso para a Michele.“Já saiu pronta do alojamento. Vejo como uma empresa, sabe? Tenho que sair pronta para meu trabalho, cumprir horário”.

Acordando às seis horas da manhã, coloca o uniforme, veste a touca, o avental, bota as canecas na mesa, o leite, a água para ferver e o pó do café no coador. No almoço, prepara as saladas, carnes, com o maior cuidado e higienização. “Eu gosto. É uma coisa que precisa ser rápida e o tempo passa e você nem percebe”, diz, sorrindo. O semblante de leveza não muda quando fala da convivência com as outras presidiárias, não que tenha amizades fortes, contanto, cada colega é importante para Michele e merecem respeito.  

Flores que sustentam 

Antes da vida enclausurada, todos os dias vivia rodeada de árvores e flores – de todos os tipos, cores e aromas. Paisagista, era dona de uma floricultura famosa, em uma cidade litorânea catarinense. Executando projetos e vendendo primaveras, tirava dali o sustento para todas as estações do ano. As plantas preferidas são as palmeiras. “Você pode colocar ela em um ambiente de interior que ela se adapta sem o sol”, ensina Michele, que também tem afeição por Jasmim de várias espécies. Na perna, uma tatuagem estampa outra paixão: as baleias. Quando trabalhava no Arquipélago de Abrolhos, na Bahia, adorava observar as jubarte. Foi justamente o amor pelo mamífero marinho que a trouxe para Santa Catarina, lugar onde queria ver a baleia franca na costa. 

Um litoral de liberdade 

Criada em Balneário Gaivota, município catarinense, o mar sempre foi a casa de Kálita. No vai e vem da sua vida, pegou onda com companhias erradas. Arrepende-se, mas insiste na inocência. Fala sobre a perseguição da polícia já na primeira prisão. 

Era garota de programa numa boate e tinha uma casa na esquina. Alguns rapazes, amigos meus, estavam na minha casa fumando maconha e de repente chegou a polícia. Todo mundo correu, entrei dentro de casa e fechei a porta. Eu tinha uma latinha que só tinham as baguinhas da maconha, tipo xepa de cigarro. Aí a polícia revirou minha casa, não achou nada de droga, porque não tinha. E me levou por causa daquele pote de baga de maconha. Tinha uma grama e meia de maconha. Eu fiquei 33 dias no presídio e meu advogado me tirou”, lembra.

Com as pernas trêmulas, Kálita anseia pelo futuro. Pretende ser estilista. Abrir a própria empresa de costura. A esperança na liberdade é o que a mantém com os pés no chão. Ensino médio incompleto, parou por causa do ciúme do primeiro marido. Mas confirma que não passou por nenhum relacionamento abusivo, nem na vida de programa. Sonha em ser mãe, algo que Michele já entende bem. Mãe de três filhos, avó de quatro netas, a detenta cozinheira recebe na cadeia a visita de poucos familiares. Carregando o peso de ser a primeira presa na árvore genealógica, tem a sorte de ter Felipe, o caçula que leva as duas netas Laura e Heloísa para abraçar a vovó a cada quinze dias. “Elas são tudo o que eu tenho. Não me veem como criminosa, não tem preconceito, sabem a pessoa que realmente sou”, conta com o olho lacrimejando.

À espera da liberdade, as duas detentas preenchem algumas páginas da sua vida dentro de um sistema penitenciário. Ainda que passem anos em meio a escuridão, o tempo nunca está perdido para elas. É uma forma de meditar e planejar para que o futuro seja melhor que o ontem. O sistema ainda falha na reeducação e acompanhamento pós-prisão. A vida do crime acaba sendo mais oportuna em meio a dura realidade. Mesmo que não seja possível mudar o começo, ainda se espera que o final seja diferente e que a liberdade seja a maior recompensa. Kálita encerra a entrevista lendo o verso tatuado nos dos dois antebraços, escritos pelo cantor Charlie Brown: “a vontade de ti ver já é maior que tudo, não existem distâncias no meu novo mundo”.

 A frente das grades              

Diferente das detentas, que estão presas a rotina, os agentes penitenciários precisam lidar com imprevistos. O dia a dia dentro de uma cadeia inclui diversos problemas, que precisam ser resolvidos de imediato. Nas cadeias femininas a atenção precisa ser ainda maior. Não só pela questão do perigo, mas, principalmente, sobre o que é previsto em lei para as detentas. Mulheres conhecem bem a necessidade de outras mulheres e, para também evitar constrangimentos machistas, são elas quem estão a frente das grades. “Tenho orgulho da minha profissão”, diz Daiane Boneto de Souza, agente no Presídio Feminino de Tubarão. Com 28 anos de idade, mãe de dois filhos, ela não tem medo do que pode encontrar no trabalho. 

-Aqui dentro, não podemos julgar e nem repreender ninguém. Nós seguimos o judiciário. Eles que vão bater o martelo e decidir o futuro delas. Não gosto de saber no que às presidiárias se envolveram, até para não ter diferença no tratamento e respeito. Se eu respeitar elas, elas me respeitam. Então, procuro ser o mais justa possível. E funciona. 

Ainda que não estejam atrás das grades, o trabalho no sistema penitenciário é visto de forma negativa. Daiane, por exemplo, se ofende quando a chamam de carcereira. “É um termo que usavam antigamente, quando andavam até de chinelo pelos presídios. Hoje é diferente”, conclui. Talvez o preconceito esteja na forma como retratam as cadeias, como um ambiente violento e inseguro nos cinemas e telejornais. Como se a própria liberdade terminasse também para os trabalhadores que enfrentam a vida na frente das grades. A lógica deste espaço não valoriza o trabalho de milhares de agentes e assistentes que se dedicam a profissão com ética e humanidade.  

Por Kamila Melo e Milena Flor