Principal SAÚDE Dois anos da lei das doulas: O que mudou desde então?
Dois anos da lei das doulas: O que mudou desde então?

Dois anos da lei das doulas: O que mudou desde então?

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Em 2018, a lei municipal das doulas completa dois anos desde a aprovação, em Tubarão. Até então, os hospitais só aceitavam a entrada de um acompanhante no momento do nascimento, o que obrigava a mãe a escolher entre um familiar, como o pai da criança, ou a doula. O marco foi atingido em nível estadual cerca de um ano depois. O trabalho traz tantos benefícios comprovados, como redução nas taxas de violência obstétrica, que a presença dessas “mulheres que servem”, conforme a definição do nome em grego, é recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

As doulas são profissionais que dão suporte às mulheres, desde a gestação, repassando informações e orientações. Durante o parto, dão apoio físico e emocional à parturiente, e utilizam técnicas para aumentar o conforto e reduzir a dor, por exemplo. No pós-parto, atuam no estímulo à amamentação e na formação do vínculo entre mãe e bebê.

Michele Wanderlind, que atua como doula há alguns anos no município, diz que a lei mudou a forma como os profissionais de saúde veem as doulas. “Hoje somos recebidas totalmente diferente nos hospitais. Somos respeitadas no nosso trabalho, médicas e enfermeiras sabem que estamos ali para auxiliar a mulher e somar na equipe multidisciplinar para que aquela família tenha a melhor experiência possível”, comemora.

Menos de três meses após a aprovação da lei, o Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC) iniciou o cadastramento das profissionais que desejavam acompanhar os partos. Atualmente são 16 doulas que são autorizadas a realizar o atendimento. Desde então, 55 nascimentos contaram com o apoio de doulas no HNSC, a maioria parto normal, feitos tanto pelo SUS, quanto por convênio e particular.

Em setembro do ano passado, a Socimed também inaugurou a Maternidade Conceito, que utiliza terapias alternativas, como o uso de duchas, banhos de banheira, massageadores, tecidos acrobáticos, bolas suíças e banqueta de parto, para diminuir intervenções desnecessárias e transformar o ambiente hospitalar mais aconchegante. As doulas também são bem-vindas no hospital, onde já foram realizados 15 partos com a atuação delas desde 2016.

Para Michele, o movimento da humanização do nascimento ainda é recente e envolve muitos mitos. “O sistema obstétrico ainda está voltado às cesarianas, à medicalização e isso é algo que permeia a mentalidade de toda sociedade. O parto ainda é visto como algo perigoso. É preciso muito estudo por parte das mulheres e famílias e busca por empoderamento para chegar ao fim da gestação conhecendo o processo do parto e confiando em si e na fisiologia”, ressalta.

Esses conhecimentos podem ser encontrados em grupos de apoio ao parto normal, como o Zoe – Nascer Divino, da qual Michele faz parte. Semanalmente são realizadas cirandas, rodas, palestras e cursos para levar informação de qualidade às famílias. “Porém, assim como foram necessárias algumas décadas para se construir um sistema que não acredita no parto, será preciso ainda algumas outras para que a sociedade volte a acreditar. É um trabalho de formiguinha e é uma transformação social”, conta a doula.

A expansão do trabalho das doulas

Um dos mitos que às vezes afasta a gestante de procurar o trabalho da doula é o custo. Porém, os valores variam de acordo com quantos encontros serão feitos ao longo da gestação e puerpério, além do parto em si, mais ou menos tempo de experiência, entre outros fatores. Inclusive, algumas fazem trabalhos voluntários, sem cobrar. “A maioria que fala que é caro nunca nem nos perguntou quanto cobramos, e iriam se surpreender caso perguntassem. De qualquer forma, nunca vi nenhuma doula negar atendimento a uma mulher porque ela não poderia pagar”, esclarece Michele.

Ainda assim, elas reconhecem que é um trabalho inacessível a todas as mulheres, como gostariam. “Eu acredito que a forma de democratizar esse atendimento seja a formação de doulas comunitárias, por meio das prefeituras, atuando nos ESFs, ofertando rodas e cursos nos grupos de gestantes nos bairros”, sugere.

Para o relator, vereador Paulo Henrique Lúcio (PT), o Paulão, sempre tem espaço para avançar, melhorar, repensar e refazer. Com isso em mente, um outro projeto, que institui a Semana Municipal de Conscientização à Humanização do Nascimento, foi apresentado na sessão da Câmara de Tubarão na última segunda-feira (26). “O objetivo é a transmissão de ensinamentos aos alunos da rede pública e privada, do ensino médio e fundamental, sobre os ganhos em termos de qualidade de vida que podem ser adquiridos a partir de uma gestação, parto e início de vida com qualidade, respeitosos e amorosos”, explica Paulão. O vereador também adianta: o próximo passo é pensar em algo que possa também ser conectado ao SUS.

Foto: Amanda Rodrigues Anselmo